quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O TELEFONE

Quando um Gajo e uma Gaja se envolvem numa relação, para alêm das formas normais de comunicação (falar, arremessar objectos contundentes, usurpar comandos), comunicam tambêm por telefone. Até há bem pouco tempo, havia a noção de que os Gajos não tinham em si os genes necessários para falar longas horas ao telefone, e quando o usavam era para dar recados rápidos de índole “logo saio às oito, não janto em casa, xau”. As Gajas, que se há coisa que gostam é de passar horas ao telefone, mesmo com pessoas com quem passam horas pessoalmente, não entendiam esta vertente da personalidade do Gajo, e arrumavam-na na mesma gaveta que outras vertentes igualmente incompreensíveis*, mas que até se suportam porque as pilhas estão caras e acabam depressa.

Mas o dia chegou em que se inventaram os auriculares, e os Gajos começaram a poder falar ao telefone enquanto conduzem. E começaram a surgir telefonemas mais longos, de duração aproximadamente igual à distancia trabalho-casa, dependendo do trânsito e do preço da gasolina, em que os Gajos dissertavam longamente sobre o seu dia, os seus problemas, o sentido da vida, a conjuntura mundial e a melhor maneira de cozinhar bacalhau com natas. Ao princípio as Gajas deliciaram-se com a novidade pois isto dava-lhes a oportunidade de passar mais tempo a falar com o Gajo e sem ter que competir com futebol, o que não é todos os dias que acontece**. Mas chegou eventualmente a altura em que as Gajas, habituadas a estes longos períodos de conversa e partilha, resolveram começar a telefonar noutras alturas do dia para partilhar pequenos nadas que se vão passando na vida da Gaja comum, e quando telefonavam nestas outras alturas do dia, voltavam a deparar-se com o muro de “sim, pois, tens razão, agora tenho q ir, xau, beijo”. Isto poderia passar-se uma vez, e uma Gaja pensar “pois, reuniões”, duas vezes e uma Gaja “é... dor de dentes”, mas as Gajas começaram eventualmente a notar a tendência “quando tenho que passar o tempo tens que estar disponível para as minhas historinhas de merda, mas quando tenho outras coisas a fazer*** não quero nem saber que estejas em trabalho de parto de gémeos meus”. E foi este o dia em que as Gajas começaram a deixar de achar piada aos telefonemas longos com hora marcada e em que os Gajos deram por si a levar com impressoras lazer na cabeça por um motivo completamente novo e insuspeito.

*incapacidade de ver que a louça está por lavar, entre outras.
**de meados de julho a meados de agosto, em anos ímpares.
***ler os titulos dos jornais desportivos

(via mail)

Um comentário:

M. disse...

lol

Tempos modernos...Temos que nos adaptar....

O desenho é demais!

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