quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Matusalém, ou a longevidade de uma nulidade chamada Sócrates


Creio já ter escrito tudo sobre Sócrates, exceto o essencial, que me escapou, e era mesmo essencial. Nesta etapa dos acontecimentos, já é irrelevante saber em que parte do casco o icebergue rasgou o nosso titanic lusitano, porque o que agora conta é saber onde estão os salva vidas, sabendo nós já que não vai haver lugar para todos, para todos, claro, exceto para o Sr. Sócrates, que embarca sempre, e de qualquer modo, e em qualquer lugar, como lhe é próprio.
Como Salazar, Sócrates representa a essência do Português comum, mas meio século depois: golpista, dissimulado, sonso, capaz de tudo, negociando simultaneamente com deus e o diabo, metido em tudo que é esquemas, mas, ao contrário do zé das botas, que mandou remendar eternamente as suas solas, este acha que, trocando repetidamente de sarapilheiras caras, e de marca, não continuará a usar o mesmo par de nariz de merceeiro. Continua, e continuará. O Sr. Sócrates, salvo alguma cadeirinha da Moviflor, que carunche durante um Conselho de Ministros, e o faça alombar com a traseiras dos cornos nalguma laje, está para dar e durar. Contam-se, pelos dedos da mão, os chefes da Oposição que já enterrou, e a mais dura de enterrar foi a “Velha”, a única que tinha razão, e previu tudo o que ele ia fazer, como eu próprio fiz, para mal dos meus azares, no “Ferreira Leitismo que se segue”, e não me enganei.


O Sr. Sócrates, que só poderia lembrar a Maquiavel, a Paulo Teixeira Pinto, a Pedro Silva Pereira, a Medina Carreira, Proença de Carvalho e a todas as aves negras que pairam no poleiro do Bloco Central, voltou a dar um golpe de mestre, através do típico processo de vacinação, de que o Português de Lineu tanto gosta: adiantou-se aos disparates soprados pelo “Paramécias” e pelas consciências morais do PSD, Euricos de Melo, e sombras afins, e propôs, ele próprio, as medidas que o PSD-Governo poderia vir a tomar.
A coisa é sábia e tem várias consequências imediatas: a primeira, a de que o nativo, desde logo, não se revoltou, e se habituou a carregar com o seu novo fardo, sem pôr uma bomba debaixo do dois cavalos da Câncio, nem metralhar a Velha Jeová, que envenena os cães da Rua do Héron-Castilho, nem abater nenhum dos escorte-boys que lá vão, consolar as nádegas do “Prime”; não, nada aconteceu, e já se pode avançar para o próximo pacote de pilhagem do trabalhador e dos impostos de quem não vive da usura, do tráfico e da especulação, em suma, daqueles que moram em casas com empréstimos de 50 anos, e não andam a pairar em varandas de “off-shores”.
Ao descalçar a Oposição, fez uma coisa ainda mais grave, porque assume, implicitamente, que, se ele, bonzinho, se vê obrigado a assumir tantos males, que horror não seria se se desse uma alternância de Poder, com medidas ainda mais austeras, e tomadas por uma “Direita”, que, em Portugal, martirizado por caceteiros de “Esquerda”, ainda é lida como espaço de… “caceteiros”.
Suponho que Ovídio adoraria ter tratado o tema nas “Metamorfoses”, mas não tratou, assim como Aristóteles não previu o Garrafão de Águeda, nas suas “Partes dos Animais”.
Passa, assim, o carrasco, a salvador, com a agravante de que ainda se apresenta como vítima, o homem que pede ao Portugal do BPN e dos três submarinos do Rui Pena, transformados em dois, pelo Portas, sacrifícios locais, para evitar que os mauzões do PSD ainda lhes venham pedir piores, e, assim, captará, nas suas maiorias cada vez mais reduzidas, os votos necessários para se manter na cabeça do Governo.
Por mim, que o acho desprezível, embora notável, pela capacidade de sobrevivência neste deserto de ideias, esperanças e saídas, em que esta porcaria se tornou, dava-lhe um tratamento de choque: aprovava-lhe já, com brutal abstenção e voto contra, o seu monstruoso Orçamento, chumbando-lhe, depois, tudo, taco a taco, na especialidade, até que a bicha apanhasse um ataque de nervos e se demitisse. Como Portugal não pode ser governado, em gestão, por um gajo suspeito de Pedofilia, repunha-se Sócrates, desvitalizado, a ser mandado pelas maiorias flutuantes da Oposição. Aliás, para o tipo de país que temos, cada vez mais defendo um estado de fragmentação parlamentar que só permita formar maiorias absolutas, não já só com três partidos, mas com QUATRO, de preferência, com ideologias incompatíveis, para ficarmos, de vez, e assumidamente, à deriva.
O Sr. Sócrates é o Ratzinger da Política Portuguesa: depois de andar a minar Papas durante décadas, o Conclave resolveu pô-lo no próprio lugar de Papa, o único onde não podia continuar a andar a minar os pontificados alheios.
Onde colocar Sócrates, então se se demitisse?
E a resposta é… pô-lo em Primeiro Ministro, em gestão, que é o lugar onde menos pode ser nocivo a Portugal, e deixá-lo por lá apodrecer, enquanto nós navegamos por conta própria.
Vão-me perguntar por que não dediquei uma palavrinha ao Sr. Aníbal, no meio disto tudo. Como sabem, o Sr. Aníbal está neste estado, mas bem medicado, o que indica que só se desfará em pó lá para meados do segundo mandato, com o Garrafão de Águeda já internado numa adega cooperativa, e o senhor das enfermeiras, a voltar a brincar às enfermeiras.
A Maria descai por tudo quanto é lado: parece aquelas velas grossas, da mesa de Natal, que começam por ser certinhas e cilíndricas, e depois amolecem e escorrem por todo o lado. Ela alargou nas patas, na bunda, nos membros anteriores e tem um olhar místico, como Santa Teresa de Ávila, a ser montada pelo Senhor, só que sem brilho, numa espécie de orgasmo de fusíveis fundidos. Viu, mas já não vê, o solzinho a dançar. Dará uma boa Senhora Maria dos nossos novos salazares, e, quanto à questão da Monarquia, até vai ser resolvida sem Referendo: ao longo do segundo mandato, o Sr. Aníbal, com a sua coqueluche de Vilar de Maçada, irá cada vez mais parecer-se com uma fotografia a preto e branco, daquelas velhinhas, em que D. Carlos aparece montado num burro, com as pontas dos pés a roçar pelo chão. A nova Dona Amélia, de Boliqueime, poderá então deixar crescer o seu buço, pôr um lenço preto, como as pastorinhas do mar, da Nazaré, perder uns dentes, e escurecer outros, e tudo será muito belo e miserável, como há cem anos atrás. A excepção seremos nós, os que ainda vemos um bocadinho mais acima, e a quem a Miséria estará reservada em tons de sépia, para que não digamos que não fomos tratados, neste inominável cataclismo, como… diferenciados.
Olha, pela minha parte, agradeço imenso!…
(via mail)

2 comentários:

M. disse...

Se este texto foi para me impressionar...

Conseguiste.

Até ouvi música do Zeca Afonso em fundo...

Palavra....

Isso Agora disse...

M: ando louco para te impressionar, tu é que não reparas...

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